Mais signos

Às vezes não nos damos conta da força que uma marca carrega. Se você não se importa, vou usar meu filho como cobaia:

Fato 1
Aos dois anos, estamos tomando café na padaria e pegamos para ele algumas mini-coxinhas. Ele pega uma e comenta:
– Pela base ou pelo bico?
Ele repetia o slogan das mini-coxinhas do Habib’s.

Fato 2
Aos três anos, entramos numa loja das Casas Bahia e ele não perde tempo:
– Casas Bahia… aqui tem preço barato, né?

Este artigo é uma espécie de continuação do último, A força de um signo, em que comentava do cuidado que se deve ter ao oferecer uma metáfora para a explicação de um conceito.

Aqui, ressalto o sucesso do marketing destas duas empresas: eles conseguiram levar sua mensagem até para quem não é consumidor, uma criança de dois ou três anos. Na verdade, a criança pode ser vista como um consumidor indireto. Suas vontades podem, sim, influenciar os pais numa decisão de compra.

O que me salta aos olhos é que, acostumados como estamos com a leitura, a assimilação da mensagem pelo moleque surpreende: como ele leu essas mensagens, ele nem sabe ler? Até você perceber que uma propaganda nunca é só texto. Ela vem com gente atuando o texto, vem com música dando o sentimento que se quer, vem com cores vibrantes. É uma mensagem multidimensional, tentando ser assimilada em vários níveis de percepção.

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A força de um signo

Uma pequena história para ambientação.

Minha esposa, outro dia, conversava com nosso filho, então com

3 anos:
– Vi, sabia que você é meu tesouro?
Ao que o garoto, meio confuso, meio indignado, respondeu:
– Tesouro?! Por acaso eu estou enterrado?!
– Não, é que… – e ele a interrompeu, tentando entender a comparação.
– Por acaso eu tô num baú?
– Não, filho – e eu imagino a cara dela, tentando não rir – é só que você me é muito importante.

Esse é o problema das metáforas. Elas facilitam a compreensão de um conceito que se quer passar, desde que o receptor tenha experiência similar a do receptor e atribua valor similar a imagem que se está usando.

Do contrário, como vimos ns historinha da introdução, temos um problema na comunicação e a mensagem ou não é compreendida ou, pior ainda, mal interpretada.

Isso não é uma crítica ao uso de metáforas ao se tentar explicar conceitos mais complexos, mas um alerta ao comunicador, procure selecionar a imagem mais adequada a seu público-alvo.

Se você tem interesse no assunto, em meu blog técnico, eu tentei abordar o assunto no artigo Falhas na Analogia da Fábrica de Software.

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Homogêneos

Se você os deixar falar,
eles te convencem que o que vendem é algo único e exclusivo,
feito igualzinho para milhares de consumidores.

Se você os deixar discursar,
eles se posicionam a favor de todas as ideologias,
sem explicar aos eleitores que, de fato,
só querem saber de seus próprios interesses.

Se você os deixar proclamar as boas novas,
eles falam por horas das vontades e planos de Deus:
vão tornar sua vida miserável, de todas as formas,
pelo prazer de estarem “certos”.

Todo mundo pensando igual
é tudo o que eles pedem
para alcançarem seus propósitos.

Diacho de mundo homogêneo:
eles estão conseguindo.

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A beleza do dia

Que importa ao dia
se está belo ou não?

É que a beleza sentida,
que me sacia e encanta
está aqui e só depende de mim.

Querendo,
meu dia se faz belo:
nublado, chuvoso ou ensolarado,
não importando seu estado.
Mas eu o permiti estar assim.

O dia, por sua vez,
segue indiferente,
alheio a meu humor.
Estará lá, indiferente:
golpe duro em meu ego.

Será que um dia
consigo ser como o dia,
apenas leve?

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Vai

O que aconteceu
com aquele “não dá mais”?
Por que abriu a porta
que há pouco havia fechado?
O que veio procurar por aqui?

Não ficou contente
com os cacos e as lascas?
Veio se deliciar
com a bagunça que ficou?

É triste, muito triste.
Que alguém precise de uso pouco para ser feliz.
Feliz não, sentir-se melhor!

Mas vá. Só vá!
Há muito trabalho por aqui.
Alguém tem que consertar as coisas.
Vai!

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Foi só dessa vez…

Você tem um portão automático, tanto para conforto, quanto por segurança. A expectativa é que diminuindo o tempo de exposição quando estiver chegando em casa, estará mais seguro, oferecendo menos oportunidade de ação para bandidos. Mas esqueçamos a questão de segurança, vamos tratar de algo ainda mais simples, o direito de um morador ter sua garagem sempre livre para poder entrar e sair com seu carro.

proibido-estacionar“Mas isso é óbvio, pra que escrever sobre isso?”, talvez pense o leitor mais inocente e idealista. A única coisa que é óbvia nisso tudo é que o mundo seria muito melhor se houvesse mais pessoas assim. O bom senso, pequeno sonhador, não se compra na padaria. Muito menos se nasce com ele. Mas deixa explicar minha situação pra ver se arranco alguma empatia de alguém, porque a coisa tá foda!

Minha realidade é esta: moro numa rua residencial, bem perto de um bar-vendinha. E tenho uma garagem. E guia rebaixada. E no portão, uma placa como esta ao lado, de proibido estacionar – para não deixar dúvida, ainda há a ameaça do “sujeito a guincho”. A casa, por fora, tem todos os indícios de ser habitada, mas que não se tenha dúvidas, há duas cadelas que sempre vão se manifestar quando alguém passar na rua ou, adivinhe, parar em frente de casa. Não bastasse isso, o Código Brasileiro de Trânsito (CBT), em seu artigo 181, no inciso IX, proíbe o estacionamento em guia rebaixada quando defronte a uma garagem. Por este artigo, a infração é média (4 pontos), rende multa (quase R$ 86,00) e pode resultar na remoção do veículo – como se vê, o “sujeito a guincho” não é uma ameaça vazia.

Ainda assim, umas duas vezes por semana – o mais comum é nos finais de semana – eu sempre tenho que enfrentar a situação: um motorista “desavisado” que me impede de entrar ou sair de casa. Normalmente, eu tento lidar com toda minha educação, ou seja, nenhuma: paro o carro atravessado na rua, embicado pra minha garagem. Meu comportamento varia entre ficar buzinando e acelerando insistentemente ou gritar aos quatro ventos “quem é o FDP que não sabe que essa merda é uma garagem?”.

Eu sei que isso parece coisa de animal, de gente incivilizada, mas acredite, já vivi isso antes em outras casas e não consigo vislumbrar uma realidade em que pessoas que estacionam em frente a uma guia rebaixada sejam civilizadas ou sejam capazes de se comunicar senão por grunhidos. Mas observe o curioso rol de desculpas que eu tenho que ouvir, apesar de tudo o que descrevi mais acima. O mais interessante é o sentimento de vítima que todos sustentam:

- Eu não sabia que morava gente.

- Era rapidinho, tava aqui do lado.

- Caramba, não precisa ser tão mal educado.

- Pow, desculpa, foi a primeira vez.

Acho que não vou nem perder tempo comentando as três primeiras desculpas. A quarta, por outro lado… a pessoa pode estar certa, talvez ela realmente tenha estacionado na minha garagem pela primeira vez. Mas não é a primeira vez que eu tenho que ser incomodado por motoristas desleixados. Na realidade, mudam as caras ou os veículos, mas o problema é sempre o mesmo, é sempre na minha garagem.

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Vingança sem rosto

Procurando um título para este artigo, me inspirei na máscara do Guy Fawkes, símbolo dos Anonymous e popularizada (no Brasil) por conta do filme V de Vingança. Um comentário só para alfinetar: até católicos podem ser revolucionários. Retomando a linha de raciocínio: o que me levou ao título de outro filme, Darkman – Vingança sem rosto, um nome que, para o contexto atual, me pareceu bem apropriado e chamativo.

Estamos perplexos. Como um movimento que foi às ruas por uma causa esquerdista (revogar o aumento da tarifa do transporte público num primeiro momento, depois acabar com a tarifa em si) conseguiu a adesão de tanta gente diferente em suas convicções e estilos de vida? Hoje, nas manifestações, correm lado a lado gente contra a “cura gay” ao lado de manifestantes pró-família, um eufemismo ardiloso para a pessoa não se declarar abertamente preconceituosa em relação à orientação sexual das outras pessoas. Eu sei o que juntou tanta gente diferente: insatisfação, a certeza de não estar sendo bem representado pela classe política. Lembre-se das notícias recorrentes de corrupção, desvio de dinheiro, lobby… independente de sua convicção política, a falta de ética na política enoja, acho que nisso todos concordamos.

Mas gostaria de relembrar uma coisa: somos pessoas diferentes. Cada pessoa ali, revoltada com a Política ou pelo menos em como ela vem sendo conduzida no Brasil (os últimos 500 anos, talvez?) é diferente, tem visões, posições, convicções diferentes.

É por isso que tenho medo desse sentimento generalizado, que anda se espalhando, manifestado na palavra de ordem das ruas: “sem partido”. De certa maneira, essas pessoas não só se posicionam frontalmente contra os partidos políticos, mas também contra a própria política em si. Nem parecem conscientes de que o fato de se manifestarem nas ruas, de passarem esse recado pro governo, é um movimento político. Que se quer apartidário e até certo ponto, acho positivo: como reunir pessoas de bandeiras tão diferentes em torno de uma causa, de um bem comum, que é a moralização da política?

E por que tenho medo?

Essas manifestações são o recado do povo, sua vingança, avisando para o governo, em cada esfera, em cada poder, que não está contente com o que estão fazendo com o país e com o bem-estar da população. Mas precisamos assumir nossos rostos, dar a cara a tapa, tomar partido, não desistir da Democracia, o sistema de governo que dá voz a todas essas pessoas e reivindicações diferentes.

As alternativas que andam oferecendo no facebook, nos botecos e nos cartazes das manifestações, não me parecem melhores. Eu quero morar num país onde se permita a livre circulação de ideias, a discussão, a organização de partidos políticos e movimentos sociais reivindicando soluções para problemas que vivem diariamente. A melhor imagem a oferecer àqueles que defendem uma ditadura militar é a do cidadão tentando se esconder atrás de um sorriso forçado, com medo de tomar borrachada da polícia. Tampouco uma democracia líquida, sem partidos, ofereceria um cenário melhor. No contexto atual, com uma população pouco educada e politizada, estaríamos todos a mercê dos líderes populistas, dos heróis.

Me chame de idealista, eu confessaria isso antes de você. Mas como disse Winston Churchill, na Casa dos Comuns:

A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.

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